Em noite fria de Outono
(8/11), o espaço do Clube Taurino, em Vila Franca, foi pouco para o calor
apaixonado dos que falaram e ouviram falar da Tauromaquia como património, como
“cultura de afectos e paixões”, que “ou se gosta ou não se gosta”.
Convidados pelo Clube
Taurino, e com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, para
falar sobre “Tauromaquia, Património Mundial”, fizeram o paseíllo, Maria da Luz
Rosinha (Presidente do Município Vilafranquense), Aníbal Mendes (em
representação do Presidente da Secção de Municípios com a Actividade Taurina -
SMAT e da Câmara Municipal de Coruche, Dionísio Mendes), Mathieu Sodore
(aficionado, pintor e professor de artes plásticas no liceu francês), Elísio
Summavielle (aficionado, ex-Director Geral do Património Cultural e
ex-Secretário de Estado) e Victor Escudero (historiador e afamado crítico
taurino).
Aníbal Mendes, técnico
responsável do Núcleo Tauromáquico de Coruche, focou a sua expressão nas
mudanças de paradigma da base da festa: a mudança do contexto agrícola, a
desestruturação do montado e a criação do toiro de lide, por oposição a, cada
vez mais, se ver ampliar as paixões pró e anti-taurinas, como expressão de que
a Tauromaquia sendo sinal cultural, pode ter a sua base ameaçada, mas tem a focalização
intensa dos intervenientes. Considerou, por isso, que os agentes políticos,
seja a Câmara de Coruche ou outra, não podem nem serão indiferentes à afirmação
da Cultura Taurina como Património, uma vez que já não o são face àquela
actividade.
Elísio Summavielle falou
da sua experiência pessoal como político, aficionado e homem de cultura,
salientando aspectos que se prendem com a tecnicidade da análise de uma
candidatura a património imaterial, bem como a vontade política taurina ou
anti-taurina que hasteia ou arreia bandeiras. Falou de como a Festa sendo
Cultura está, como outras variantes culturais, desinvestida, fazendo sobressair
que o turismo cultural é hoje uma fonte de rendimento e de ampliação das
economias nacionais. Salientou o facto da necessidade de perceber a
transversalidade ibérica e francesa das tradições taurinas e de congregar
esforços de uma candidatura comum, mostrando a necessidade de evidenciar que a
conservação de um património depende, em grande medida, da percepção que aquele
património, com as suas variantes e especificidades, pode perigar e
desaparecer.
Mathieu Sodore, na
qualidade de artista plástico, também de cariz taurino, afirmou que, mais que apostar da candidatura pela
ameaça da eventual extinção, independentemente das mudanças circunstanciais e
culturais da defesa da festa, é apostar no facto de que “a Festa está viva, é
arte e é cultura”. Pela sua origem, deu testemunho sobre as acções políticas da
França, onde, independentemente da conceptualização política, se definiu, sem
dramatismos a Festa como Património Nacional.
Victor Escudero, depois
de narrar sumariamente uma história simbólica, geográfica e ritualizada da
Tauromaquia, referiu-se às diversas visões, expressões e interpretações do
fenómeno tauromáquico, pelo que arguiu que falamos de Tauromaquias e não apenas
de uma tauromaquia, de Culturas e não apenas cultura e de vários Patrimónios
que, sendo transversais a vários países, representam um fenómeno identitário
comum, que se adquire por contacto, por afeição e por pedagogia, pelo que –
disse – “não é possível fazer um anti-taurino ser taurino, mas é possível ser
firme e salientar o que sentimos como nosso, como cultura de afectos”.
Expressou ainda que a afición, cria-se também independentemente das escolas de
toureio conseguirem grande estrelas, mas que elas são um bom exemplo de como se
criam aficionados.
Falaram ainda, entre
outros, o ganadero Jorge Carvalho referindo-se ao fenómeno de campo, à
manutenção do toiro de lide e as constantes perigações do centro da festa que é
o toiro, bem como José Manuel Rainho, que depois de traçar algumas notas sobre
o carácter de afición e dos afectos da membros da escola, relevou a escola como
contexto de incremento social, de formação cívica dos seus participantes, não
apenas numa pedagogia de afición, mas numa intervenção que pode dar matadores
mas dá homens de personalidade convicta.
Maria da Luz Rosinha, que
apresentara os intervenientes e fizera a ligação dos várias intervenções,
explicitou o percurso feito não apenas pelo Município de Vila Franca de Xira, e
no contexto da SMAT, mas da percepção arreigada que, à medida que se congrega
informação, que se investiga e se prevê o processo de candidatura, mais as
pessoas sentem que o que vivem é importante e tem um carácter patrimonial, que
não é apenas de cada um, do bairrismo local, mas um “património imaterial,
porque é das pessoas” e património mundial, “porque não se confina, desde logo,
a uma mentalidade, vivência ou terra.”
Ao fim de duas horas de animada e
substancial colóquio, Paulo Silva, em nome do clube Taurino a que preside deu
por encerrada a lide da noite…
David Silva